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Arquivos de 'Pauta, por Sônia Lopes'

Jan

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João Emanuel Carneiro – A Favorita

05-02-01-2009.jpgO Brasil acompanha as peripécias maldosas e a excelente interpretação de Flora (Patrícia Pilar) , assiste a uma Claudia Raia dando vida a Donatela com trejeitos de King Kong, embora a TV Globo queira mostrar o quanto Raia canta bem……..analisa a demência da personagem de Irene, a presença sempre marcante ed Ary Fontoura e a falta de expressividade de Mariana Ximenes como Lara, entre outras baboseiras mais. A Favorita, assim como 2008, começa contagem regressiva para seu final começo do ano. Com um texto ágil e diálogos interessantes, sem dúvida um diferencial no quesito novelas televisivas, o autor tem dito que não economiza estória. E não economiza mesmo. Abaixo uma entrevista que ele concedeu a revista Época e que o www.slcomunicacao.com posta para este fim de semana, aqui no blog. Vejam o que o autor nos diz sobre a Favorita:

ÉPOCA – Quando nasceu a trama de A Favorita?
João Emanuel Carneiro –
Depois que fiz minha primeira novela, Da Cor do Pecado (2004), fiquei pensando muito na idéia de subverter a figura da heroína e da vilã, criar uma dúvida entre as duas junto ao público. Mulheres ambivalentes. Com os anos, depois de Cobras & Lagartos (2006), fui inventando uma história em volta desta trama. Nasceram então Dodi, Irene, Gonçalo, Copola.

ÉPOCA – A história surgiu de algum fato real, de alguma observação sua?
João Emanuel –
Acho que surgiu da dúvida que sempre temos sobre o caráter das pessoas. As pessoas são sempre muito ambivalentes. Já julguei mal as pessoas achando que eram interesseiras e depois percebi o contrário e vice-versa.


ÉPOCA – Alguma obra do cinema ou da literatura o inspirou para a novela?
João Emanuel –
A série americana Dallas, de que eu gostava muito. Aquele rancho próximo da cidade, como em A Favorita, aquela família fechada em si, onde acontecem tantas histórias e tragédias, morando num rancho afastado. Como a família Fontini.

ÉPOCA – Você viu muita televisão na infância?
João Emanuel –
Vi. Eu era um filho único muito solitário, que via televisão o tempo todo até uns 12, 13 anos. Via a programação inteira, das novelas aos filmes. Adorei Água Viva, Vale Tudo, A Próxima Vítima, Guerra dos Sexos, Anjo Mau. Mas nunca pensei em escrever novela. Aliás, até poucos anos eu não pensava nisso. Queria fazer roteiro e direção de cinema. Se alguém me dissesse que eu ia trabalhar na televisão, eu diria que essa pessoa estava louca. Então eu seguia com meus projetos de cinema.

ÉPOCA – E como você foi parar na televisão?
João Emanuel –
Em 2000, a Globo estava fazendo a minissérie A Muralha, da Maria Adelaide Amaral. Daniel Filho tinha gostado de mim por causa de Central do Brasil e me levou para esta produção, que, segundo ele, estava precisando de um clima mais cinematográfico, épico. Fiz um contrato pequeno e entrei na TV. Mas em novelas colaborei apenas uma vez, em Desejos de Mulher. Pensei: “Vou sair da TV Globo. Não quero ser colaborador, quero contar as minhas próprias histórias”. Então, em 2003, mandei uma sinopse.

ÉPOCA – E foi logo aprovada?
João Emanuel –
Eu não tinha muito relacionamento lá dentro, não conhecia autores, diretores, ninguém. Coincidiu com um momento em que a Globo estava atrás de novos autores. Soube que havia uma pilha de sinopses e que o Silvio de Abreu ia ler. No dia seguinte, ele viu o meu projeto no topo da pilha, levou e em duas semanas me ligaram dizendo que tinham aprovado. Um processo muito rápido.

ÉPOCA – Qual a sua rotina escrevendo novela?
João Emanuel –
Cobras & Lagartos foi uma novela mais leve, tinha mais comédia e mais participação dos colaboradores. No caso de A Favorita, eu centralizo mais. É uma novela mais estruturada e dramática. Faço escaletas (resumos) enormes, tenho controle absoluto. São quatro colaboradores que me ajudam muito, até porque é difícil atravessar um ano e meio sozinho. Mas nesta trama tudo tem muita conseqüência, tem que ser mais amarrado. Não há nada que seja dito que não tenha uma função. Faço uma escaleta que contempla quase tudo e, depois que eles fazem a parte deles, volta pra mim. É um trabalho cansativo. Mas eu preciso de um recuo sobre aquilo que faço. Eu venho do cinema, onde os roteiros são pensados, têm vários tratamentos. Quero tempo pra ler, pensar e talvez refazer. Sei que a televisão é o reino da pressa e do improviso. Mas tento encontrar maneiras de adaptar meu estilo a isso. Por exemplo, eu escrevo muitos capítulos antes de a novela ir ao ar. Não consigo fazer seis capítulos por semana como a maioria dos outros autores. Antes de A Favorita, que tem 200 capítulos, ir ao ar, eu preparei 60. Com esses 60 adiantados, pude fazer 4 ou 5 capítulos por semana. E aí tenho tempo pra refletir sobre o que eu fiz e poder mudar. Eu preciso pensar no que fiz.

ÉPOCA – Chega mesmo uma hora em que os personagens têm vida própria, andam sozinhos?
João Emanuel –
Sim. O autor fica possuído por eles. Muitas vezes eu escrevo tudo, termino, e aí, tomando uísque de madrugada, vem à mente que algo estava errado. Eu penso: Halley jamais diria isso. Ou: Dodi não faria aquilo. Aí entra aquilo que falei, esse tempo de poder mudar, de ser o primeiro espectador do que eu faço.

ÉPOCA – E sua vida, onde fica?
João Emanuel –
O autor de novela não tem vida. É um transtorno, trabalho excessivo de um ano, uma coisa insalubre. Uma tarefa de chinês aposentado, de minúcia, de paciência. Hoje eu acordo ao meio-dia, começo a escrever, e vou até duas da manhã. E, depois que acaba a novela, fica um vazio. O que fazer naquelas 14, 15 horas ocupadas, de domingo a domingo, durante tanto tempo?

ÉPOCA – E, quando tem tempo, você faz o que?
João Emanuel –
Nos fins de semana, quando tenho algum intervalo, vou principalmente ao cinema e jantar fora.

ÉPOCA – Qual é o seu retorno sobre a novela?
João Emanuel – Cancelei assinatura de jornal e tento não ficar entrando na internet para ver o que estão falando. Mas como não tenho um rosto conhecido, muitas vezes ouço falarem da novela nas ruas, num restaurante. E os amigos também acabam me contando muita coisa. Me disseram que outro dia na rua uma menina fazia birra num shopping e a mãe disse a ela: olha que eu vou chamar a Flora! Ela virou o bicho-papão. Adoro que falem da novela e gosto também quando reclamam de alguma coisa. Eu não quero é passar em branco. O telespectador está acostumado a ver todas as novelas simplesmente por ver. Eu queria deixar as pessoas desconfortáveis. No começo reclamaram muito da Patrícia Pilar ser a vilã, porque ela não tem cara de vilã. Agora reclamam de Gonçalo ter morrido. Eu gosto que discutam a trama da novela e não alguma situação ligada à realidade. Não ponho temas polêmicos na novela pra trazer audiência. Quero que falem da minha história.

ÉPOCA – Flora é a maior vilã de todos os tempos?
João Emanuel –
Talvez. Mas eu adoro Odete Roitman de Vale Tudo. O que choca na Flora é odiar a filha. Isso é um tabu. Sem falar que ela mente, rouba e mata. Mas eu me arrependo de uma morte: a da Maíra. Tive que matá-la porque Juliana Paes foi requisitada para a próxima novela das oito, Caminho das Índias, da Gloria Perez. Hoje penso que eu deveria ter feito uma brincadeira e mandado Maíra ir trabalhar na Índia. Seria muito mais divertido fazer essa brincadeira com o telespectador.

ÉPOCA – Dizem que você é um autor muito inovador. Você concorda?
João Emanuel –
De certa forma, por escalar duas protagonistas mulheres de meia idade e também por ter voltado com os ganchos de comercial e do fim da novela. Também a reviravolta com menos de 70 capítulos foi algo novo. Isso tudo foi bem pensado, planejado, não é ao acaso. O fato de a trama estar sempre quente nasce justamente desse tempo que eu me dou para pensar e repensar o que faço.

ÉPOCA – Você também fugiu do casal romântico no centro da trama.
João Emanuel –
Sim, e deu certo. Acho que não se pode ficar preso a uma fórmula. Uma boa história, bem contada, vai sempre ser bem recebida. Mesmo que a revelação de quem é o assassino aconteça no capítulo 60, e não no 150. O começo foi mesmo muito difícil. O primeiro capítulo teve a pior audiência de todos os tempos, por causa de um ataque da Record. Eles puseram a reestréia de Os Mutantes junto com a de A Favorita, no mesmo horário, e prometeram não ter intervalos, fizeram muito marketing em cima. Mas depois a audiência foi subindo aos poucos e se consolidou.


ÉPOCA – Você se sensibiliza com os pedidos do público? Todo mundo pedia que o Gonçalo não morresse.
João Emanuel –
Eu acho que o autor tem que fazer o que tem vontade. E a audiência subiu, não é verdade? Eu acompanho a audiência minuto a minuto, por um programa no computador, que a emissora me dá. Mas confio mais na minha sensibilidade.

ÉPOCA – Família e amigos dão palpite o tempo todo?
João Emanuel –
Direto. Uma noite eu vou a um aniversário, um jantar. Todos só falam comigo sobre a novela. Então é como se eu continuasse trabalhando, porque cada coisa que me dizem eu analiso. Sem falar que dão idéias. Curiosamente, minha mãe não é muito noveleira. Ela é editora de livros, vê A Favorita, mas não entra muito nesse universo.


ÉPOCA – De onde vem sua criatividade para contar histórias?
João Emanuel –
Mais uma vez, da minha infância de filho único. Eu tinha dezenas de miniaturas de bonequinhos e havia um rei, o Rei da Bonecolândia. Todo 15 de novembro, eles colocavam minicédulas em miniurnas. Ele foi eleito umas dez vezes. Eleito rei! Uma monarquia democrática! Eram meus personagens os bonecos de chumbo, os Playmobil, eu tinha de tudo. Acho que vem daí minha vontade de contar histórias. É uma coisa escapista, coisa de gente solitária. Depois, na adolescência, escrevia histórias em quadrinhos. Aos 19, fiz um curta-metragem que ganhou um Kikito em Gramado. Aí eu conheci muita gente e comecei a fazer muitos roteiros. Até ir para a televisão.


ÉPOCA – Seu projeto é continuar fazendo novelas?
João Emanuel –
Não sei. Neste momento não consigo pensar nada, só na hora em que A Favorita vai terminar. Não vejo a hora de chegar 17 de janeiro. Estou muito cansado. Escrever 200 capítulos é demais. Ainda mais se você quer fazer um trabalho autoral. Mas posso dizer que não tenho projeto algum. Vou viajar para Trancoso, na Bahia, e ficar olhando o mar.

Fonte: Revista Época / Foto: Divulgação

Dez

26

Revelações de Ney Matogrosso

O www.slcomunicacao.com desta sexta posta entrevista reveladora com Ney Matrogrosso. Vejamos abaixo:

Por Valmir Moratelli

06-26-12-2008.jpgExibindo seu lado feminino em coreografias erotizadas como uma forma de transgressão à ditadura militar dos anos 70, o cantor Ney Matogrosso surgiu no cenário musical brasileiro influenciando toda uma geração. Mas quem abre a porta de seu apartamento, uma cobertura no Leblon, Rio de Janeiro, é um Ney sério, de voz baixa, de calça e jaqueta jeans e sapato social. A ousadia dos palcos contrasta com a sobriedade do lugar em que mora. A meia-luz da sala é para não perturbar os dois gatos que dormem no sofá.

Aos 67 anos, o cantor de voz aguda termina 2008 em turnê com o show do CD Inclassificáveis, um dos mais elogiados pela crítica. Ele também retoma sua carreira cinematográfica, que teve centelhas no final da década de 80, quando fez Sonho de Valsa e o curta-metragem Caramujo-flor e, em 2005, participou de Diário de Um Mundo Novo. Animado com a repercussão do recém-lançado Depois de Tudo, curta de Rafael Saar que narra o encontro de um casal homossexual da terceira idade, ele se prepara para mais. A convite da diretora Helena Ignez, Ney protagonizará, no ano que vem, Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha, continuação de O Bandido da Luz Vermelha, de 1968. Também em 2009, será lançado um documentário sobre sua vida.

No bate-papo a seguir, Ney fala sobre os novos projetos, sua personalidade excêntrica e o amor que sentiu por Cazuza.

QUEM: Houve unanimidade nos elogios a Inclassificáveis. A que se deve isso?

NEY MATOGROSSO: Ninguém achava que eu ainda conseguisse me mexer. É uma necessidade minha essa mexida, para me manter interessado pelo que faço. Meu público se renova, em parte, por isso.

QUEM: Por que você insiste na sensualidade das suas músicas?

NM: A sensualidade é um traço da minha personalidade. Não é minha preocupação. Não tenho controle. Não ensaio na sala para fazer igual no show. Quando subo ao palco, se manifesta em mim. Eu não freio, libero.

QUEM: Não tem medo de parecer vulgar?
NM:
Nunca. Caminho numa lâmina e busco o equilíbrio. Tudo meu é mais elástico que na média das pessoas.
Tive contato com todos os tipos de drogas(…) nunca fui dependente. (…) meu único vício é o frontal (nome de um sedativo).

QUEM: Na letra de “Lema”, você canta “Jamais vou dar fim ao menino em mim”. Como cumpre essa promessa?
NM:
Envelhecer é um estado mental, mais até do que a coisa física. Se fosse me submeter ao tempo, não faria o que faço. Fisicamente acharia que não dou conta. Acharia ainda que isso não fica bem para um homem da minha idade. Não estou nem um pouco preocupado com isso. Se me sinto apto, faço!

QUEM: Você se vê fazendo o mesmo tipo de show daqui a alguns anos?
NM:
Sei que vai ter um momento que o tempo será determinante, mas, enquanto não for, não economizarei. Não fico mais cansado do que ficava há 30 anos. Não me submeto a parâmetros. Um homem de 67 anos não faz o que faço. Minha vida não é determinada pelo tempo cronológico.

QUEM: Em outra música do CD, “Leve”, você canta “Ser feliz ou não, questão de talento”. Você tem talento para ser feliz?
NM:
Questionei muito essa frase quando a música chegou a mim. Talento para ser feliz é talento para perceber que se pode ser feliz. Felicidade não é uma coisa constante. Vivo para o agora. Não tenho nostalgia de nada. Tenho lembranças de bons momentos, mas não vivo estacionado nas alegrias nem nas tristezas.

QUEM: Por que voltar a fazer cinema?

NM: É uma coisa que pretendia há muito tempo. Não cheguei a me satisfazer como ator. Sabia que voltaria. Aí, surgiu o convite para a continuação de O Bandido da Luz Vermelha. Aceitei, mesmo sabendo que era arriscado, pelo personagem ser tão emblemático.

QUEM: Você fez Depois de Tudo, em que vive um amor gay na terceira idade. Por que aceitou o papel?

NM: Quando o diretor veio aqui em casa e me deu o roteiro para ler, eu disse: “Isso é uma proposta, né? Você está querendo que eu faça seu filme”. Perguntei se já tinham feito algo parecido. Ele disse que não. Falei: “Então, quero fazer, porque é o que me interessa: fazer o que ninguém fez”.

QUEM: Em breve você estará em um documentário. Não tem medo de ter sua vida revisitada?

NM: Imagina! Quero que vejam as épocas negras do Brasil, intercaladas a imagens de shows, em plena ditadura, e eu praticamente nu em cena. É importante que as pessoas tenham noção do que significou a minha vida artística num país totalmente opressor, numa sociedade careta.

QUEM: Também será contada sua relação amorosa com Cazuza?
NM:
Vai, porque isso não me pertence mais. Mas não me interessa tornar pública minha vida pessoal. Isso é meu, em particular, vai morrer comigo. Não estou falando de relações com homens somente, mas com mulheres também. Não quero falar de pessoas que amei. Acho vazio quem vive de falar disso.

QUEM: Você já disse que, com Cazuza, viu que “era possível um relacionamento além do sexo”. Ele foi seu grande amor?

NM: Falo isso porque, até então, eu só me relacionava sexualmente, tanto com homem quanto com mulher. Se quisessem algo a mais comigo, eu cortava. E eu tinha medo, me sentia incapaz de viver um relacionamento. Essa mudança faz parte de um processo individual de amadurecimento. Cazuza foi um dos três amores da minha vida.

QUEM: Três amores não é pouco?
NM:
Mas amei intensamente.

QUEM: E quem seriam os outros dois?
NM:
Não citaria os outros nomes. Não sei nem como isso do Cazuza escapou. Mas não fui eu que tornei esse amor público.

QUEM: O que você achou da declaração da Marina Lima,
admitindo que teve relações sexuais com Gal Costa?

NM: Mas todo mundo sabia disso! A história do processo procede? (Foi divulgado que Gal estaria pensando em processar Marina.) Tomara que não, porque é ridículo. O que me choca é que isso não era um segredo, todo mundo que conhece as duas sabe. Não acredito que a Marina tenha falado isso para gerar essa reação toda, ela falou por naturalidade.

QUEM: Você já declarou que usa maconha como terapia. Como assim?

NM: Não posso dizer que uso maconha. Já fui maconheiro, de acordar e fumar em jejum. Não posso falar que sou maconheiro, hoje. Mas, se tiver algum problema, faço uso dela de novo. Ela é extremamente útil. Já tive contato com todos os tipos de drogas disponibilizadas por aí. Nunca me viciei em nada. Meu único vício é o Frontal, um remédio que tomo toda noite para conseguir dormir. Me angustia ter que, toda noite, deitar e ser criativo. Faço dois shows na minha cabeça tentando dormir. Acordo às 9h e meia, me levanto às 10h para fazer ginástica. Sou um cara do dia, mas porque uso remédio.

Foto: Divulgação

Dez

19

José Francisco dos Santos

bv07.jpgO www.slcomunicacao.com achou oportuno postar a entrevista abaixo. O leitor que analise as declarações do motorista José Francisco dos Santos, algumas um espanto, já que o homem é político. Vejam abaixo:

Ao reconstituir a história da vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o filme Lula, o Filho do Brasil, a ser rodado em 2009, o cineasta Fábio Barreto deparou com o caminhoneiro José Francisco dos Santos. Ele diz ser o motorista que, há 56 anos, levou Lula e sua família de Garanhuns, no interior de Pernambuco, para São Paulo. O caminhoneiro relembrou a viagem em entrevista à repórter Mariana Amaro.

Como foi a viagem que o presidente Lula fez, ainda criança, para São Paulo?
Começou às 5 horas da manhã de um dia de calor de 1952 e durou para mais de dez dias. O menino Lula quase ficou para trás.

Como isso aconteceu?
Logo que peguei a estrada, pediram para ir ao banheiro. Parei. Uns vinte minutos depois, disseram que todo mundo já estava no pau-de-arara. Como eram mais de 100, não tinha condição de contar. Perguntei de novo se estava todo mundo lá. Disseram que sim. Já tinha rodado uns 40 metros quando uma mulher gritou: “Meus filhos ficaram”. Parei e vi dois moleques pançudos chorando e correndo atrás do caminhão. Um dia desses, o Vavá (Genival Inácio da Silva) me contou que eram ele e Lula.

Quanto o senhor cobrou pela viagem?
Deles, eu não cobrei nada. Não tinham de onde tirar. Estavam passando necessidade. Um político amigo meu me explicou a situação e pediu que eu não cobrasse. Fiquei no prejuízo. O político me disse que eram oito pessoas. Quando eu cheguei, onze me esperavam. Como cada passagem custava 250 cruzeiros, deixei de ganhar 2 750 cruzeiros. Eles não foram os únicos que vieram de graça. Eu trouxe mais de 100 000 pessoas para São Paulo. Não teve viagem em que não viesse alguém sem pagar.

Mas era um bom negócio ser dono de pau-de-arara?
Era ótimo. Cheguei a ter quatro caminhões para trazer o povão do Nordeste para São Paulo. Juntei bastante dinheiro. Acabei perdendo quase tudo quando entrei na política. Em 1962, eu me elegi vereador em Garanhuns. Tive um mandato de seis anos. Fui do partido do governo militar, a Arena (Aliança Renovadora Nacional). Gosto muito de política, mas, naquele tempo, tinha de ter dinheiro para entrar nela. Os eleitores exigiam muito. Cobravam pelo voto. Queriam sapato, roupa, passagem, consulta médica…

O senhor já votou em Lula?
Nunca. Não votei nem votarei. Até a família dele dizia que ele era comunista, e eu sempre fui de direita. Aliás, tenho um desejo grande: gostaria de viver para assistir à volta do regime militar ao nosso país. Foi Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil, mas quem construiu o país foram os 21 anos de governo militar. Se for tirado o que o regime militar construiu, não fica nada.

Depois da viagem, o senhor chegou a reencontrar o presidente?
Sim. Em 2006, ele foi a Garanhuns e falou que queria me conhecer. Quando cheguei, esperei que fosse, pelo menos, me oferecer a mão. Ele falou para mim: “Dizem que foi o senhor que levou minha família e eu para São Paulo em 1952″. Eu respondi: “Dizem não, é a realidade”. Lula deve ter pensado que era mentira, porque me pareceu muito mal-agradecido. Depois, quis ver onde ficava a casa em que ele estava quando eu passei para buscar a família. Aí, foi um pouco mais simpático.

O senhor se arrepende de ter-lhe dado carona?
Na vida, só me arrependo de não ter aprendido a ler direito. Se eu tivesse estudado, seria um Rui Barbosa.

Fonte: Revista Época / Foto: Divulgação

Dez

12

Tudo muito bem pensado

0711.jpgO www.slcomunicacao.com desta sexta, dá espaço para entrevista com o galã-jogador Kaká. Vejamos o que ele tem a nos dizer:

Para Kaká, o título da Copa América de 2007 e o bronze nas Olimpíadas de Pequim, neste ano, demonstram que Dunga tem feito um bom trabalho à frente da Seleção Brasileira. Detentor do título de melhor jogador do mundo concedido pela Fifa, o meia afirma que o grupo tem potencial para conquistar o hexa na Copa do Mundo de 2010, mas tem de obter uma série de vitórias para reconquistar a credibilidade. Nesta entrevista aos leitores de ÉPOCA, Kaká também fala sobre a derrota no Mundial de 2006 e explica por que decidiu casar-se virgem.

Quem É
Nascido em Brasília em 22 de abril de 1982, Ricardo Izecson Santos Leite é casado com Caroline Celico desde dezembro de 2005 e pai de Luca, de 5 meses de idade

Carreira
Revelado pelo São Paulo, em 2001, foi vendido ao Milan, da Itália, em 2003. Convocado para a Seleção pela primeira vez em 2002, participou das duas últimas Copas

Principais Títulos
Ganhou a Copa do Mundo de 2002 pelo Brasil e a Liga dos Campeões em 2007, ano em que foi eleito o melhor jogador do mundo

Qual é sua opinião sobre a atuação do Dunga como técnico da Seleção? Podemos acreditar nela para conquistar o hexa?
Ludimila Andréa Rosa dos Santos, Carapicuíba, SP

Kaká – A atuação do Dunga na Seleção, junto com sua comissão técnica, tem sido boa até aqui. Falo isso pelos resultados, já que ganharam a Copa América em 2007, foram bronze nas Olimpíadas e estão em segundo lugar nas Eliminatórias. Esse grupo tem um grande potencial e pode, sim, conquistar o hexa. Mas, claro, precisa até lá melhorar algumas coisas, ganhar mais experiência.

O que está faltando para que o Brasil volte a ter a melhor Seleção do mundo?
Mayra Cristina da Silva Costa, Alfenas, MG

Kaká – Acredito que continuidade. Neste momento, a Seleção Brasileira precisa ganhar e convencer. E, conquistando uma série de vitórias, acredito que teremos a credibilidade de volta.

Você se sente culpado pela derrota na Copa de 2006? Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria?
Letícia Leite, Aracaju, SE

Kaká – Não me sinto culpado. Se eu pudesse mudar alguma coisa, como já falei, não teria jogado contra a França com dor. No jogo contra Gana, sofri um trauma no joelho esquerdo e essa dor acabou me limitando na partida contra a França. Talvez, com um pouco mais de experiência, eu não tivesse entrado em campo e, sim, deixado alguém que estava em melhores condições que eu.

Você, quando era pequeno, sonhava em jogar num time específico?
Guilherme Mendez, Jaguaruaíva, PR

Kaká – No São Paulo e na seleção brasileira.

Você voltará algum dia para o São Paulo?
Diego Campos, Cascavel, PR

Kaká – Sou muito grato ao São Paulo e tenho uma ligação muito forte com o clube. Por agora, penso em ficar aqui um bom tempo. Se, no futuro,tiver a oportunidade, voltarei a jogar pelo São Paulo.

Em 2002, quando o Brasil foi penta, você estava na reserva. Em 2006, o sonho do hexa naufragou. Como você encara a Copa de 2010 sendo o principal jogador da Seleção?
Antonio Geraldes, São Paulo, SP

Kaká – Encaro como uma grande oportunidade. Poder disputar minha terceira Copa do Mundo seria uma grande oportunidade. Por isso vou me preparar muito para poder estar lá e trazer o hexa.

Você acha justo que os jogadores ganhem salários altíssimos enquanto a maioria da população sobrevive com R$ 415 por mês?
Rita de Cássia Vasconcelos, Fortaleza, CE

Kaká – Eu acho. Infelizmente, foi criado em torno dos jogadores de futebol esse comentário de que se ganha muito dinheiro sem merecer. O futebol é um negócio, e em volta desse negócio giram bilhões. O centro desse negócio são os jogadores. Nada mais justo que aqueles que fazem o negócio girar sejam remunerados justamente. Se a empresa onde você trabalha consegue produzir, e você é um funcionário competente dessa empresa, nada mais justo que você venha a ser remunerado por isso.

Você acha que sua beleza mais ajudou ou atrapalhou sua carreira?
Raísa Aquino, Salvador, BA

Kaká – Eu sempre procurei me desvincular do jogador bonitinho. Eu sempre quis e quero ser reconhecido pelo meu trabalho, pelas minhas realizações em campo.

É mais fácil conviver com o assédio da imprensa, dos torcedores ou do público feminino?
Mateus Castanho, Brasília, DF

Kaká – No começo todo o assédio foi complicado, pois eram situações novas para mim. Depois fui aprendendo a lidar, ficando mais experiente, mais maduro, e hoje posso dizer que e fécil conviver com todo o assédio. Acho que o mais difícil é quando se perde a privacidade, seja com imprensa, com torcedor ou público feminino.

Fonte: Revista Época/On LIne / Foto: Divulgação

Dez

5

Martha Medeiros

9.jpgQuem ainda não conhece Martha Medeiros deve procurar, urgentemente, ler seus textos. Há várias semanas nas listas de livros mais vendidos de todo o país, Doidas e Santas (L&PM, 232 páginas. R$31) reúne cem crônicas da gaúcha Martha Medeiros, cronista, poeta e romancista que vem conquistando uma legião cada vez maior de leitores (e sobretudo leitoras) com textos que abordam diferentes questões da vida contemporânea. Amor, maternidade, sexo, família, casamento e as neuroses da vida urbana são alguns dos temas abordados no livro mapeia a mutante ordem afetiva em que vivemos.O www.slcomunicacao.com posta entrevista da autora de Doidas e Santas para encanto dos leitores que a admira. Essa semana, o blog trouxe notas e crônicas de Martha e já vem recebendo e-mails com “quero mais” . Hoje, também vamos postar outro texto dela –Casamento Aberto - , mais abaixo. Vejamos, portanto, o que diz mais e mais, Martha Medeiros em conversa para a internet:

A Entrevista

G1: Ao longo de sua vida, você foi mais doida ou santa? E no momento atual?

Martha Medeiros: São dois adjetivos fortes e muito antagônicos. Acho que sempre fui mais santa, no sentido de não ser rebelde, de seguir certas regras, de não virar muitas mesas. De algum tempo para cá, estou virando algumas, todas particulares e sem fazer muito estardalhaço. Não chego a ser uma doida graduada, mas aprendi a respeitar minhas pequenas loucuras secretas.

G1: A crônica que dá título ao seu novo livro foi inspirado num verso de Adélia Prado: “Estou no começo do meu desespero/ e só vejo dois caminhos:/ ou viro doida ou santa”. Você acha que a mulher brasileira contemporânea realmente vive esse dilema?

Martha: Não tive a pretensão de retratar a mulher brasileira contemporânea. Essa crônica fala genericamente das escolhas que uma mulher madura faz: ou ela segue tentando satisfazer seus desejos ou interrompe as buscas. Costuma-se dizer que uma mulher de certa idade que ainda almeja paixões é uma doida, as santas serenizam. Na minha opinião, essas santas é que são loucas.

G1: Lá pelas tantas você escreve: “Toda mulher é doida. Eu só conheço mulher louca”. Se um homem escrevesse isso, talvez fosse apedrejado… Seus leitores às vezes reagem mal ao que você escreve? Em que medida o retorno que eles dão afeta a sua escrita?

Martha: Nenhum homem seria apedrejado se escrevesse isso, a não ser por mulheres muito mal humoradas, porque está na cara que ser “louca”, no sentido em que uso, é um elogio a todas nós. É a loucura do eterno questionamento, de não se contentar com o que parece definitivo, de possuir inúmeras vontades, mesmo contraditórias: casar e não casar, ter filhos e não ter filhos… É a loucura sadia de querer se conhecer profundamente, já que não muito tempo atrás nosso papel era muito definido e inquestionável. Antes éramos mulheres privadas, agora somos públicas. Ainda estamos em estado de excitação: falamos demais, gesticulamos demais, queremos demais, amamos demais. Somos ainda bastante superlativas. Quanto ao retorno dos leitores, é estimulante, mas não muda o caráter da minha escrita. Aceito críticas bem argumentadas e que são feitas com educação, e deleto as grosserias, mas na maior parte do tempo recebo elogios, pAra minha sorte. De qualquer forma, não há como alterar o jeito de escrever em função de uma reação ou outra: eu faço o que sei fazer, não conheço outro jeito.

G1: Você está entre os escritores mais reproduzidos Na Internet. Como enxerga a crescente “virtualização” da vida, dos relacionamentos, da comunicação entre as pessoas?

Martha: Duas coisas: a reprodução dos meus textos pela Internet, apesar de me divulgar, me incomoda barbaramente. Eu me daria por satisfeita em ser lida nos jornais e nos livros – o que já é bom demais. Na Internet, perco o controle do meu trabalho. Meus textos ganham enxertos, ganham cortes, ganham novas autorias, vêm acompanhados de músicas que não são do meu gosto, de ilustrações que não acrescentam nada, enfim, me sinto violada, apesar de entender que nada posso fazer quanto a isso, e que há uma generosidade do leitor por trás dessa propagação do meu trabalho. Me rendo. Quanto à virtualização da vida, ninguém nos obriga a isso, é uma opção nossa. A comunicação por e-mail é facilitadora, dinamiza as relações. Já expor a vida no Orkut me parece pura vaidade. Mas ela é explicável neste mundo onde você só “existe” se tiver uma vasta platéia. Ninguém mais está interessado em existir apenas para si mesmo.

G1: E como analisa esse impulso à exposição da intimidade, que fica explícita nas redes sociais, mas também em programas de televisão e mesmo no dia-a-dia, nas conversas cotidianas? A que atribui isso?

Martha: Acho que é isso: vaidade e solidão. Estamos vivendo uma época em que todos sentem necessidade de “aparecer” para comprovar sua existência. Claro que isso não acontece com todo mundo, mas me parece que esse universo espetaculoso que a gente vê nas revistas e na televisão está gerando muitos complexos de inferioridade por aí, e a gente sabe que quanto mais inferior a pessoa se sente, mas necessidade tem de se exibir, de se expor, de ser arrogante.

G1: Várias crônicas suas falam sobre o casamento e a relação a dois. Você acha que o casamento e a família estão em crise? Que futuro você enxerga para essas duas instituições numa sociedade em que todos os laços parecem cada vez mais instáveis e frágeis?

Martha: Eu creio que todo mundo segue almejando uma relação estável, uma
relação de amor. Falta aceitar que o “pra sempre” não existe mais, porque temos mais oportunidades e mais longevidade, e isso dinamiza a vida. Se aceitarmos que não é nenhum fiasco vivenciar, ao longo da vida, duas ou três relações estáveis – sem contar as provisórias, contingentes, como dizia Simone de Beauvoir – ninguém mais falará em fracasso ou crise. Se observarmos bem, já estamos vivendo essa realidade. Falta aceitá-la como padrão de normalidade.

G1: Encontrar a felicidade amorosa virou quase uma obrigação muito pesada, especialmente para as mulheres. Vivemos uma fase de desespero afetivo, em que as pessoas buscam o amor a qualquer preço?

Martha: A qualquer preço, nem todos. Buscar a felicidade amorosa sempre foi
um objetivo do ser humano. Algumas pessoas realmente se desesperam e se jogam em qualquer oportunidade de contato, mas quem somos nós para julgar? E se esse preço não for caro pra elas? Outras aceitam a idéia de viverem sozinhas, até que surja alguém em quem valha a pena investir. Acho que a patrulha era até pior antes: se você não fosse casado, era uma solteirona recalcada (nós) ou playboys indignos de confiança (vocês). Uma enorme pressão. Hoje as pessoas já não cobram tanto se você é solteiro ou casado, ainda que a sociedade sempre receba com mais alegria os “pares” do que os “ímpares”.

G1: Lutas de décadas passadas, especialmente das mulheres, são hoje conquistas
consolidadas. Mas existe um clima de insatisfação permanente no ar, ou não? Você acha que as pessoas estão mais felizes na nova ordem em que vivemos, de “fast relationships”?

Martha: Acho que a insatisfação feminina está mais relacionada à quantidade
de responsabilidades que ela tem assumido. Parece que é preciso ser super-mulher para provar que a revolução feminista vingou. Vejo certas capas de revistas, e parecemos todas biônicas, infladas, poderosas. Creio que é o momento de buscar um equilíbrio nas tarefas e não se importar muito com o que a sociedade espera de nós. Quanto às fast relationships, eu sei que é isso que rola, mas fica difícil eu comentar sobre algo que não tenho testemunhado in loco. Ao menos nos circuitos que eu freqüento – bastante caseiros, reconheço – ninguém está se sentindo condenado a essa brevidade: tem muita gente aí a fim de investir numa relação, de não ficar trocando de par a cada semana. O que as revistas mostram, a vida das celebridades, não pode ser analisada como padrão de comportamento.

G1: O fato de ser gaúcha ajuda você a ter uma percepção diferente das coisas? A sociedade gaúcha é mais machista e conservadora que a do eixo Rio-São Paulo? Ou isso é um preconceito?

Martha: Não sei se o meu trabalho seria diferente no caso de eu ter nascido no
Rio de Janeiro ou em São Paulo. Se eu tivesse nascido de outro pai e outra mãe, aí sim: seria uma pessoa diferente. Mas minha influência cultural não vem apenas de costumes regionais: vem dos livros, do cinema, das viagens, de idéias que extrapolam fronteiras. O Rio Grande do Sul tem uma tradição machista, mas ao mesmo tempo foi o primeiro estado a apoiar a união entre homossexuais. É um estado conservador e, ao mesmo tempo, foi o primeiro a dar suporte ao PT, quando este ainda era um partido totalmente alinhado com uma esquerda dita revolucionária. Então prefiro não me amparar em estereótipos. Acho que temos uma queda por rótulos, o que reduz a visão do todo.

G1: A sua experiência na publicidade afetou de alguma maneira a sua escrita, no sentido de ter ensinado a “seduzir” o leitor?

Martha: Sem dúvida. O texto publicitário quer persuadir, antes de tudo. Trabalhei cerca de 14 anos nessa área e certamente trouxe alguns cacoetes para a crônica, só que meu universo agora não é mais o de compra e venda de produtos, e sim o da permuta de idéias, do compartilhamento de reflexões. Ainda assim, reconheço que meu texto procura “ganhar” o leitor através de uma comunicabilidade amparada no humor e no coloquialismo, e isso tem a ver com a propaganda. Meu texto não é indiferente em relação a quem o lê.

Fonte: Blog / Maquina de Escrever / Foto: Divulgação

Nov

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José Goldemberg

“O Brasil não precisa de energia nuclear”

Por Peter Moon

c7.jpgToda manhã, bem cedo, um senhor percorre a passo rápido a pista de cooper do clube A Hebraica, em São Paulo. Ninguém lhe dá os 80 anos que tem. Gaúcho de Santo Ângelo, o físico José Goldemberg é um dos maiores cientistas que o Brasil já teve. Foi reitor da Universidade de São Paulo e ministro da Educação. Sua especialidade é a produção de energia. Crítico das usinas nucleares, nos anos 1970 Goldemberg foi um dos responsáveis pela criação do Proálcool. Passados 30 anos, o programa é referência mundial. Em 2007, a revista Time elegeu Goldemberg um dos Heróis do Meio Ambiente no planeta. Há poucos dias, ele recebeu o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do Meio Ambiente. São R$ 800 mil (50 milhões de ienes) dados pela fundação Asahi Glass, do Japão, por sua contribuição às políticas de uso e conservação de energia. Goldemberg está em ótima companhia. Exemplos de ganhadores do prêmio são o ecologista britânico James Lovelock, criador da Hipótese Gaia (a suposição de que o planeta forma um grande organismo vivo), a ex-primeira-ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland, conhecida por sua ação a favor das causas ambientais, e o ambientalista Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute, um dos mais respeitados centros de análise ambiental.

Entrevista - José Goldemberg

Quem É
Gaúcho de Santo Ângelo, José Goldemberg, de 80 anos, é físico

O Que Fez
Foi reitor da Universidade de São Paulo (1986-1990), ministro da Educação (1991-1992), secretário federal da Ciência e Tecnologia (1990-1991) e do Meio Ambiente (1992), secretário do Meio Ambiente de São Paulo (2002-2006)

Seus Prêmios
Prêmio Volvo do Meio Ambiente (2000) e Prêmio Planeta Azul (2008)

Época – O que o senhor acha da energia nuclear?
José Goldemberg – Os países que adotaram a energia nuclear em grande escala são França, Japão, Coréia do Sul e Taiwan. No caso da França, a adoção foi para buscar a autonomia energética, o que a torna hoje o país da União Européia menos dependente do gás natural da Rússia. A segunda razão foi a inexistência de outras opções. O Japão não tem recursos hídricos nem petróleo. O pico na construção de usinas no mundo foi entre os anos 1960 e 1970. As empresas que produziam reatores começaram a pressionar os países em desenvolvimento a fazer usinas. Aí aconteceram os acidentes nas usinas em Three Mile Island (1979), na Pensilvânia, e Chernobil (1986), na Ucrânia. Eles deixaram muita gente preocupada. A construção de usinas nos países ricos parou. Nos Estados Unidos, não se inaugura um reator há 30 anos. Muitas empresas fecharam. A Siemens fechou sua divisão nuclear. A General Electric saiu do ramo. Sobrou apenas uma empresa, a francesa Areva, que absorveu todas as outras. Ela teve um reforço substancial do presidente Bush, que, em seu mandato, tentou reerguer a energia nuclear. Isso não ocorreu até agora.

Época – O governo anunciou que vai concluir Angra 3 e quatro novas usinas, duas no Nordeste e duas no Sul. Como o senhor vê esse projeto? Goldemberg – Após o primeiro choque do petróleo (1973), os militares queriam construir até 30 usinas. O governo Geisel não entendeu que a energia nuclear competiria com as hidrelétricas no fornecimento de eletricidade. E não substituiria o petróleo. Felizmente, conseguimos mostrar isso. Hoje, o problema é o mesmo. O Brasil ainda não precisa da energia nuclear. Temos outras opções. O aproveitamento hidrelétrico do Brasil ainda tem amplo espaço para avançar, e os problemas ambientais aos poucos vão sendo resolvidos. Hoje, é possível gerar energia com uma área inundada menor que os reservatórios de Itaipu ou Tucuruí. Outra opção é a energia eólica no Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão e Ceará. O potencial equivale a uma usina de Itaipu (que responde por 20% do consumo do país). No Sul, existe um pouco de vento em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas não muito.

Época – Há outras opções?
Goldemberg – O bagaço de cana. Com a expansão do etanol, a quantidade de bagaço disponível é cada vez maior. O que antes era um rejeito de que as usinas precisavam se livrar, hoje, pode ser queimado para gerar eletricidade. As usinas de álcool já vendem 1 milhão de quilowatts, potência igual à da usina nuclear de Angra 1. Não é pouco. Dentro de cinco anos, as usinas de álcool gerarão 4 milhões de quilowatts. Em dez anos, o equivalente a uma Itaipu (ou 12 milhões de quilowatts).

Época – Então, por que voltar a investir em energia nuclear?
Goldemberg – Os planos de expansão nuclear no Brasil são resultado da pressão corporativa do próprio setor nuclear. Terminar a usina de Angra 3 não é ruim. Já estamos no meio do caminho, é melhor acabar e pronto. Agora, espalhar quatro reatores pelo país me parece mais uma tentativa de agradar aos governadores locais que de responder a uma necessidade de energia. O sistema brasileiro é interligado. Quando se liga a luz da cozinha, não se sabe se a energia é de Itaipu ou de Tucuruí. Dizer que é bom colocar um reator no Nordeste, pois assim o Nordeste ficará independente em energia, é uma falácia. Fazer novos reatores é politicagem.
“Enquanto a tranqüilidade social do brasil depender do programa
bolsa-família, estamos num terreno muito escorregadio”

Época – A ditadura militar queria fazer a bomba atômica. Esse desejo pode estar por trás do anúncio das novas usinas?
Goldemberg – A política das potências nucleares é evitar a proliferação. Um projeto geopolítico para dotar o Brasil de armas nucleares, em vez de ajudar-nos a entrar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pode jogar contra. Assim que o Brasil se engajasse nesse caminho, a Argentina faria o mesmo. A proliferação nuclear, que o presidente Bush acabou consciente ou inconscientemente estimulando, é um desserviço para a humanidade. É perigosa. Há uma experiência de 60 anos em que Estados Unidos e União Soviética, mesmo em situações extremas, não recorreram às armas nucleares. Mas países periféricos como o Irã ou até Israel podem usar armas nucleares se acharem que sua soberania nacional está em jogo.

Época – O vice-premiê israelense, Shaul Mofaz, disse que “atacar o Irã para parar seus planos nucleares será inevitável”. Energeticamente, como fica o mundo?
Goldemberg – O Irã ainda não acabou seu reator, mas olha a mão-de-obra que está dando. Se esse cenário ocorrer, o barril de petróleo passará dos US$ 200 e poderá chegar a US$ 300. Os países seguirão o exemplo da França. Seu cenário encoraja o nacionalismo energético. Mas o Brasil está protegido. Temos outros recursos.

Época – Vivemos o terceiro choque do petróleo?
Goldemberg – Sim. Até 40% do aumento no preço do petróleo é fruto de especulação. Com o barril a US$ 140, caso acabe a especulação, o barril ficará em US$ 100. Abaixo disso, não cai.

Época – Como fica o Brasil, depois da descoberta do megacampo de Tupi? Goldemberg – As projeções de Tupi são excelentes. Sob esse aspecto, o que acontece no mundo nos ajuda. Se o petróleo estivesse a US$ 40, os novos campos seriam inviáveis, por causa do custo de extração. Agora sim, o Brasil se tornará uma grande potência. Mas é preciso aliar o desenvolvimento econômico ao social. Enquanto a tranqüilidade social do país depender do Bolsa-Família, estamos num terreno escorregadio. Não se pode fazer como Dubai, com seus arranha-céus, hotéis sete-estrelas e arquipélagos artificiais. É um escárnio para a pobreza que existe no mundo.

Época – O que é o Prêmio Planeta Azul?
Goldemberg – Ele foi dado pelo conjunto de minha carreira, não por um trabalho isolado. Cerca de 1.500 pessoas indicaram 104 nomes. Um comitê secreto escolheu o vencedor. É um pouco como o Prêmio Nobel, que não tem essa categoria. O Planeta Azul pretende assumir o papel de um Nobel do Meio Ambiente. A reputação do prêmio é dada pelas pessoas que o receberam. Na lista há nomes muito bons. A entrega será em Tóquio, em novembro.

Fonte: Revista Veja / Foto: Divulgação

Nov

21

Coller no universo da moda

s7.jpgO www.slcomunicacao.com dedica espaço nesta sexta, ao produtor de moda Ricardo Coller que movimenta o Moda Recife 2008, quarta e quinta-feira próxima, 26 e 27. Creditado no segmento e com um currículo vitorioso, Coller se esforça para levar ás ruas um exemplo de evento popular, onde a moda criada pelo pólo agreste e pelas marcas que atuam em lojas do centro apareçam como deve, dando visibilidade a qualidade do que aqui é produzido. E, responsável e talentoso como é, podem escrever que o Moda Recife 2008 segue seu caminho, rumo a entrar no calendário anual de eventos de moda do estado. O Moda Recife já é visto como o maior evento desta natureza, ao ar livre, do Nordeste. Vejamos o que ele tem anos dizer sobre a iniciativa:

www.slcomunicacao.com: Quais empresas do Agreste e que atuam no centro desfilarão suas coleções Primavera/Verão no Moda Recife 2008?

Ricardo Coller: Serão 18 empresas no total sendo três do centro do Recife e 15 do pólo do Agreste composto por Toritama, Caruaru,Santa Cruz do Capibaribe e Surubim. Das empresas do centro participarão as lojas Emanuelle, Moda Mania e Esplanada. Das empresas que fazem moda pernambucana no Pólo de Confecções do Agreste podemos citar A Rota do Mar, Coesão–Jeans, Flor de Cactus, Rosa Rio, Sport Company, Repertório, Fera Surf, Kikoru, Skavem Saka Praia, entre outras.

www.slcomunicacao.com: Como se deu a seleção das empresas que participaram deste evento?

Coller: O Evento, que a partir deste ano passa a ser anual, tem o apoio total do SINDIVEST-PE que também esta fazendo a curadoria das empresas participantes.

wwwslcomunicacao.com: Os modelos vão vir de fora?

Coller: Como se trata de um evento 100% regional, pelo formato do evento, não iremos trazer modelos de outros estados, todas os modelos são Pernambucanas, aliás, toda equipe do evento são Made In Pernambuco.

www.slcomunicacao.com: Quantos looks de cada empresa serão apresentados?

Coller: Por dia teremos 10 empresas participantes com 25 looks cada.

www.slcomunicacao.com: Como será o acesso do público ao Moda Recife?

Coller: É gratuito. E chegamos a conclusão que, como é um evento na rua aberto ao grande público, não seria o ideal colocaremos cadeiras. Isso limitaria a participação do público. Mas teremos algumas cadeiras para os patrocinadores e imprensa em uma área reservada próximo a passarela para outros convidados.

www.slcomunicacao.com : Por que a escolha do horário das 13h às 17h30 para acontecer o evento?

Coller: O Moda Recife 2008 visa apresentar aos consumidores que circulam pelo centro, a moda que é vendida lá mesmo, daí o horário de realizar o evento das 13h as 17h30. Assim aproveitaremos o público e as lojas em seu horário normal de funcionamento.

www.slcomunicacao.com: Há uma expectativa de público no Moda Recife 2008?

Coller: Bom, fizemos uma pesquisa junto a EMTU 1,2 milhões de pessoas circulam no centro do Recife no período de Novembro a Dezembro, já para aproveitar as compras de final de ano. Nosso evento será dias 26 e 27, a primeira parte do 13º salário já tem saído desde o dia 20/11.

www.slcomunicacao.com: Quais os investimentos para o evento?

Coller: Serão investidos 500 mil reais neste projeto.

www.slcomunicacao.com: Quais classes sociais este evento pretende atingir?

Coller: Ultimamente tem se notado um crescimento no consumo das classes C e D. Hoje você anda no centro do Recife e sempre tem alguém comprando nas lojas, diferente dos shoppings que a grande movimentação fica na praça de alimentação e, muitos dos consumidores de shoppings estão consumidos no centro também. Então o evento já nasce com esta diversidade de classes A,B,C e D e para todos que circulam no centro em busca de novidades.

www.slcomunicacao.com: Como será o evento?

Coller: A empresa responsável pela estrutura de passarela, som luz é imagem é a LAMP. Não será utilizado apresentador neste evento . Toda informação e apresentação das logomarcas se dará através de um telão LED de 3.50mt. O DJ convidado para fazer a trilha do evento é Hiptonick e será utilizado no material de divulgação do evento como TV e rádio, uma trilha 100% regional com um toque de eletro e moderno. O Lounge de 100m² e o Buffet, feito exclusivamente para receber a imprensa e patrocinadores, serão assinados por André Palma.

www.slcomunicacao.com: Quais os parceiros do evento? E como se dá essa parceria?

Coller: Governo do Estado através da AD/DIPER ; SEBRAE ;patrocinador. SINDIVEST e SINDTÊXTIL apóiam o evento; FIEPE apoio institucional ;CDL Recife também.

www.slcomunicacvao.com; Como nasceu à idéia deste evento?

Coller: da vontade de mostrar que Pernambuco, que hoje fabrica 13% do jeans nacional, tem uma grande produção de malhas e o pólo de confecção do Agreste vem a cada dia melhorando mais sua produção, contratando profissionais sérios para darem consultoria e montar coleções. Mostrar para os consumidores do centro que a moda vendida lá não vem de fora é sim é fabricada aqui mesmo com alta qualidade

www.slcomunicacao.com: Quanto tempo você levou para formatar o projeto?

Coller: É um projeto que já existe há dois, desde sua idealização, pesquisa de mercado até a captação de recursos e a realização final.

www.slcomunicacao.com; Além do Moda Recife , quais os grandes trabalhos realizados pela sua Casa de Produção?

Sou diretor de produção estou no mercado de eventos e moda há 13 anos e já prestei serviços para grandes empresas e marcas. Trabalhei como diretor executivo de todo o catálogo do estilista Walter Rodrigues para o verão 2007, que foi lançado sua coleção no Fashion Rio e Nova Iorque. Coordenei o desfile de Fause Haten e fiz o editorial de moda para revista Portuguesa The Club. Participei do Cult Plaza evento para o lançamento do livro de etiquetas e comportamento com Claudia Matarazzo e da produção de lançamento da Tommy Hilfiger no Brasil. A Casa de produção é uma empresa que trabalha na realização de evento seja ele moda ou corporativo, hoje atendemos alguns clientes como: Banco BGN S/A, Cetelem BNP Paribas, Handara Jeans, Banco Azteca, Empório Deli e Alpha Plast Indústria .

www.slcomunicacao.com. Obrigada pela entrevista Coller e boa sorte com o Moda Recife 2008.

Nov

14

Marina quer casar

14-08-1.jpgO www.slcomunicacao.com escolheu para republicar hoje, a entrevista que a cantora Marina Lima concedeu a revista Joyce Pascowitch. Nesta entrevista exclusiva, a cantora dispara contra as famílias conservadoras que impedem suas filhas de experimentar o sexo entre mulheres, fala de sua primeira transa gay, de música, do lançamento de seu primeiro livro e do desejo de encontrar uma companheira, ou um companheiro, para compartilhar o seu mundo

Por Vanessa Cabral

Entre uma coisa e outra, Marina Lima escreve artigos. Sobre assuntos que considera importantes. Sobre música, romance, sexo e mulheres. Sobre coisas que a façam rir. Em março do ano que vem, chega às livrarias do Brasil e de Portugal seu primeiro livro. Uma coletânea desses artigos, todos inéditos, costurados com entrevistas bombásticas (e sérias) que deu ao longo de seus quase 30 anos de carreira. Será publicado pela editora Língua Geral, especializada em autores da língua portuguesa para países que falam esse idioma. Marina escreve – orientada pelo professor Fernando Muniz e sua empresária Connie Lopes (dona da editora no Brasil) – no tom contundente das letras de suas músicas e de suas falas. Como as que proferiu nesta entrevista, em São Paulo, na Casa Glamurama. Com uma certa timidez, que revela a menina que ainda é, e a sensualidade de mulher madura, Marina posou para o fotógrafo João Wainer. Entre as poses, falava. Gosta de conversar, de dar gargalhadas. Não fala explicitamente, mas sabemos que, apesar do bom humor, anda inconformada: recentemente se viu envolvida com uma mulher mais jovem, mas a relação não foi para a frente. A família da tal jovem, uma das mais tradicionais da capital paulista, pressionou para o fim do romance. “Não quero mais aventura. Sou muito aberta a tudo, mas não cabe mais na minha vida coisas que vão me fazer infeliz”, lamenta.

Aos 53 anos, Marina se diz mais leve, relaxada, sem tantos medos. Livre dos tenebrosos tempos que sofreu de profunda depressão e culminou com a perda da voz. Um golpe duro para uma cantora. “A idade nos ensina que o tempo é curto, não tenho mais tempo a perder”, ela ri. Solta aquela sua gargalhada típica, aberta, da garganta. “Eu quero casar”, dispara. “Chega de saber tanto e não ter com quem compartilhar”, poetiza. “Quero alguém que veja a minha alma e goste de mim como eu sou”, diz ela, que não pára e parece ter uma energia quase adolescente. O.k. Marina, nós entendemos. É tanto amor que não cabe em si. Tanto que está compondo muito para o próximo CD, previsto para o primeiro semestre de 2009. E diz que as novas canções virão cheias de “metáforas inteligentes” para mexer com a cabeça de todo mundo.

Entrevista

J.P: Por que você acha os paulistas mais caretas do que os republicanos (nos Estados Unidos)?

Marina Lima:(risos) Há anos eu quero morar em São Paulo, porque eu adoro esta cidade, mas não consigo. São Paulo tem de tudo: indústria, show, moda, se ganha muito dinheiro e se conhece gente que trabalha para crescer e mudar a imagem do Brasil. Isso me atrai. Mas tem um lado que puxa esta cidade para trás. São essas pessoas que vêm do interior do país e mantêm aquela mentalidade careta e conservadora.

J.P: De quem você está falando?
ML: Dessas pessoas que têm muita grana de família e são muito respeitadas por isso. Porque, em São Paulo, ter dinheiro é ter poder. E elas têm filhos, netos, que nasceram num mundo diferente do delas, que não nasceram lá em Goiás, no interior de Minas Gerais ou no interior de São Paulo. São pessoas que estudaram, viajam muito, que cresceram no mundo de hoje. E o mundo hoje mudou. Sexo hoje é diferente, a moral é diferente, entende? As coisas são mais naturais hoje em dia. Mas não para esse pessoal enraizado no interior do Brasil.

J.P: Você acha que atrasam a mentalidade do país?
ML: Atrasam. Por causa dessa mentalidade antiga, careta, várias coisas que tem no primeiro mundo não tem aqui.

J.P: Como o quê?
ML: Permite-se casamento entre pessoas do mesmo sexo na Holanda e na Espanha, por exemplo. [Barack] Obama é a favor disso nos Estados Unidos. E no Brasil, em São Paulo, as pessoas parecem que votariam no Bush se pudessem. Como São Paulo é um lugar que agrega gente do Brasil inteiro, tem famílias de muito dinheiro morando aqui, mas que pensam como no século passado. E reprimem seus filhos e netos, que são pessoas que nasceram no mundo moderno e estão a fim de experimentar a vida da cidade grande, mas os pais e os avós não deixam. E qual é a moeda? É o dinheiro. Se você for livre, eu tiro o seu dinheiro.

J.P: Você fala de chantagem? Se a filha ou o filho quiser ter uma transa homossexual cortam a mesada?
ML: Volta e meia, vejo isso. Acontece que eu, por ser famosa, atraio tudo que é tipo de pessoa. E o meu trabalho atrai muita gente jovem. Então eu conheço pessoas em São Paulo ótimas, talentosas, ligadas à moda e à cultura, e volta e meia percebo que as famílias as puxam para trás. E causam uma infelicidade enorme, porque esses jovens, que vão a Londres, a Nova York, em São Paulo têm de ficar se segurando porque a família exige um comportamento do interior de não sei onde.

J.P: E no Rio, é diferente?
ML: É bem mais liberal. Lá o dinheiro tem menos valor. No Rio, se tem outros interesses, a grana não é tão importante. Coisas belas são mais. São Paulo reúne os dois, mas tem gente que vive aqui achando que está na roça. O mundo mudou. São Paulo é uma representação do Primeiro Mundo no Brasil. Então, seria importante a mentalidade também mudar.

J.P: Mas não é papel dos jovens enfrentar e derrubar padrões conservadores?
ML: Pois é, o que eu percebo aqui é que o dinheiro tem um valor enorme. Se for experimentar aquilo ali, eu tiro o dinheiro. E os jovens se prendem a isso. A minha adolescência foi nos anos 70, uma época de valores bem diferentes. Dinheiro era uma conseqüência. Hoje, tudo é mais plástico, careta e hostil.

J.P: Mas os tais jovens compactuam quando cedem à chantagem financeira, não?
ML: Para você ver como o dinheiro tem uma importância enorme, né? Se uma garota de 25, 30 anos quer transar com mulher, qual é o problema? Meu Deus do céu! Por que isso ameaça tanto?

J.P: O que você acha que eles temem? A maioria não admite ver a filha com outra mulher?
ML: É o medo diante do que os outros vão pensar. O mundo está em outra e esses caretas se dão ao trabalho de tentar sustentar uma mentalidade já falida. Você pode ser ladrão, escroto, mas se tem uma imagem, tudo bem. E não é mais por aí. Os valores humanos têm de ter importância. Eu sou filha de nordestinos e meus pais eram muito respeitosos. Meu pai [Ewaldo Correia Lima] era um intelectual, ético, um homem de valores. Se os filhos quisessem ser assim ou assado, desde que fossem corretos, ele era incapaz de se meter. Essas pessoas têm muita grana, mas não têm um senso muito claro do que é ética. Até que ponto você pode se meter na vida do outro, na vida do próprio filho. Tem limite. Até os animais têm de ser respeitados, entendeu?

J.P: Marina Lima quer casar?
ML:(risos) Já morei junto três vezes. (pausa) Na realidade, é assim: Fiz 53 anos e muitas coisas na minha vida não cabem mais. Não cabe mais drama, não cabe mais coisas que vão me trazer infelicidade. Eu quero que as relações durem mais. Não estou atrás de aventura. Sou aberta para qualquer coisa, mas eu queria realmente encontrar um companheiro ou uma companheira para dividir as coisas que eu sei, para compartilhar o meu mundo, de uma maneira mais madura, adulta.

J.P: O compromisso de acertar não dá mais medo de errar?
ML: Quando se está mais velho, você se conhece melhor e já sabe o que quer. Não tem medo.

J.P: Você já disse uma vez que era pansexual.
ML: Não (risos), foi a Joyce que disse que eu era pan. Eu disse que transava com mulheres e com homens. Mais com mulheres. Eu não transo muito na realidade. A imagem que eu passo é de uma pessoa que faz [tem relações sexuais com] todo mundo e, na realidade, eu não transei com muita gente. Gosto de transar com amor. As mulheres não dividem sexo e amor.

J.P: Mulher gosta de romance.
ML: É, homem vai a uma sauna, bota tudo para fora e escolhe a mulher certa com quem ele quer ficar. A mulher se confunde toda.

J.P: Duas mulheres juntas não é muita encrenca?
ML: Conheço casais héteros que só faltam se matar (risos). As pessoas têm de pensar o seguinte: Qual é o problema de realizar as fantasias se na imaginação já se pensa tanto? Tem um abismo entre o que você pensa e o que você realiza. As pessoas imaginam loucuras, mas por preconceito têm medo de experimentar. Ninguém é obrigado a fazer nada, mas deixa quem quiser fazer.

J.P: Por que você gosta mais de mulher?
ML: Tenho mais facilidade de me relacionar com mulheres. Eu me sinto mais à vontade com uma mulher. Com homem, é mais complicado.

J.P: Por quê? Os homens a assustam?
ML: Porque somos muito diferentes. Uma mulher é um bicho de sete cabeças para qualquer homem; sendo uma mulher famosa é mais. Uma mulher famosa tida como bissexual mais ainda. E eu imagino que os homens têm uma idéia de mim de que eu sou muito desinibida. E eu não sou.

J.P: Mas você é tímida?
ML: Não sou tímida, mas quando procuro um homem é porque quero ser a mulher dele. E eles imaginam que eu vá comê-los. Quando eu tinha 24, 25 anos, namorei um cara lindo da sociedade carioca, um pão (risos). Ele me lembrava o meu irmão Beto: moreno, alto, bonito. Eu fui de coração aberto. Não era mais uma adolescente, mas senti uma paixão intensa, como se tivesse encontrado um príncipe. Transei com ele, mas eu não tinha muita experiência, e fiquei muito magoada porque ele contou para todos os amigos. Aquilo foi um choque para mim, porque eu estava apaixonada e queria aprender com ele. Foi uma decepção enorme. Então, com homem, sou muito seletiva mesmo. E tem de ser bonito (risos). Estou brincando, mas tem de ter charme e ser um homem no qual eu possa confiar.

J.P: Mulher é mais confiável?
ML: Eu tenho mais prática nisso (risos). Não vejo a mulher como uma competidora. E, com homem, eu tenho mais pudor.

J.P: Desde criança?
ML: O primeiro homem por quem eu me apaixonei foi um primo, filho do irmão do meu pai, chamado Ewaldo, o mesmo nome do meu pai. Coisa mais óbvia (risos). Eu fui apaixonada pelo Ewaldo dos 12 aos 16 anos, mas depois fiquei muito ligada à música. E lembro que eu vi uma vez a Gal [Costa] no programa do Chacrinha. A Gal com cabelo crespo, e o meu cabelo era crespo também. Ela estava com uma guitarra e cheia de anéis. E eu tinha vindo de fora, morei dos 5 aos 12 anos nos Estados Unidos, e nunca fui ligada a raízes, sempre fui mais internacional. Então, quando eu vi aquela imagem da Gal, pensei: Ah! É possível isso no Brasil. Eu tocava violão muito bem, queria trabalhar com música, mas não conseguia achar uma expressão cultural popular com a qual eu me identificasse aqui no Brasil. Quando vi a Gal no Chacrinha, vi que existia espaço para isso aqui. Fiquei louca pela Gal. Um tio meu da Bahia me levou a um show dela e eu fiquei muito fã. Passaram alguns anos e eu ouvi falar que Gal era gay. Foi um choque para mim. Um choque! Eu não estava nesse mundo. Eu namorava o Ewaldo, não estava nem imaginando isso. Aí eu soube que essa mulher, que era meu grande ídolo, transava com mulher. Foi um choque, mas aquilo abriu uma porta para mim. Até que, enfim, eu conheci a Gal. Eu tinha 16, 17 anos, e ela começou a brincar de sedução comigo. Fiquei em pânico e voltei para os Estados Unidos. Fui estudar música para ficar longe e não ter de lidar com aquilo, para poder pensar. Sou virginiana, eu gosto de pensar sobre as coisas e entendê-las. Aí, lá fora, eu vi que eu queria experimentar, e que a pessoa que eu queria era ela. Voltei para o Brasil, com uma fita e assinei um contrato com a Warner aos 17 anos. E me aproximei da Gal e acabei transando com ela. Foi muito importante para mim.

J.P: E os seus pais?
ML: Minha mãe conversou comigo, mas meu pai nunca falou sobre isso. E ele era um homem muito exigente, com ética, moral. A turma do meu pai era Maria da Conceição Tavares, Celso Furtado, meu padrinho Hélio Jaguaribe, pessoas muito importantes para a história do Brasil. Ele tinha uma ética: Se você botou filho no mundo tem de dar um embasamento para ele poder engatinhar e descobrir o lugar dele. E não ficar usando o dinheiro para controlar os filhos, como essas famílias aqui em São Paulo fazem. Coisa suja comprar a própria filha. A Gal foi muito importante para mim porque me mostrou um outro horizonte. E me sinto em vantagem por isso.

J.P: Como é o amor no século 21?
ML: Uma grande confusão. Seria bom as pessoas terem menos medo umas das outras.

J.P: Mudando de assunto, o que você ouve?
ML: De tudo e muitas vezes, nada. Como eu tenho um ouvido doente, que ouve freqüências que ninguém ouve, valorizo demais o silêncio. Essa coisa de trilha sonora para tudo, eu não agüento. Às vezes prefiro os ruídos do mundo.

J.P: Mas quem são os seus eleitos?
ML: Nirvana mudou a minha relação com o rock. Estava muito cansada de rock, achando uma coisa chata, de gente branca, metida a pureza, careta, sabe? A entrada do Nirvana na cena sujou o rock de novo. E, no Brasil, essa onda de samba o tempo inteiro, acho um pouco chata.

J.P: Estilo Seu Jorge, samba tipo exportação?
ML: Não, Seu Jorge eu acho bom. Ele é o Jorge Ben de hoje em dia. Não que o Jorge Ben seja antigo, mas Seu Jorge representa na cultura brasileira neste século o que Jorge Ben foi há 20 anos. Vejo Seu Jorge num lugar muito alto, tenho grande admiração pela voz dele.

J.P: Não é elitista?
ML: Acontece que a indústria musical sofreu um baque como se as bolsas todas caíssem no mundo inteiro (risos). Seu Jorge tem de procurar as pessoas que estão a fim de divulgá-lo, e o mercado de música no Brasil empobreceu muito. A política do Lula visou os menos favorecidos; com razão, é louvável isso. Mas as pessoas querem algum tipo de diversão. Então foram empurrando no mercado as piores coisas que têm para ganharem dinheiro e o mercado brasileiro de música não falir. Seu Jorge exige calma, é um Cartola, é o alto nível. Não tem um monte de Seu Jorge no Brasil. Tem um monte de gente talentosa, mas esse é um cara especial. E o mercado investe no que vende mais rápido.

J.P: Como será o primeiro livro de Marina Lima?
ML: Será lançado pela Língua Geral, editora da Connie Lopes, minha empresária, que é especializada em autores da língua portuguesa. Meu livro será lançado em março do ano que vem, aqui e em Portugal. E eu não conhecia Portugal. Conheci e fiquei fascinada. Lá eu entendi muita coisa sobre o Brasil.

J.P: O que nos diferencia de Portugal?
ML: Portugal é bacana, está no mercado europeu, mas tem um peso de país pequeno, com muito falso moralismo. Eu acho que o brasileiro não é tão assim. A gente é mais livre. A não ser essas pessoas que lidam com o poder do dinheiro como um valor único e não conseguem se misturar com o resto. É uma pena. Para elas, claro!

J.P: E o livro?
ML: Chama Marina Entre as Coisas. Estou escrevendo artigos sobre temas que eu acho importantes: música, canto, mulheres, coisas que me fazem rir. Humor é essencial. Gente sem humor está fadada a ser infeliz.

J.P: Você é bem-humorada?
ML: Eu sou (risos). Valorizo muito o sexo, porque mexe com o corpo todo, faz o sangue circular e melhora o humor. É bom, nem que seja de vez em quando.

J.P: Além da Gal, você namorou outras cantoras.
ML: Eu transei com algumas cantoras. Não é à toa aquela história do canto das sereias. O canto hipnotiza, as pessoas se apaixonam pela voz. Eu transei com algumas cantoras, mas sem dúvida a Gal foi a mais importante. É a que vale a pena falar. Foi a primeira, né?

J.P: O que a fez chorar nos últimos tempos?
ML: Salvador. Eu tenho uma ligação com Salvador, namorei algumas pessoas de lá. Quando eu falo algumas, é uma ou duas (risos). É que foi tão intenso, que parece que foram muitas. Depois, comecei a achar que tinha um conto ali, desses que você cai. É como a Madonna fala de Hollywood, que ela ama, mas que pode tragá-la de um jeito que ela não consiga mais sair

J.P: Salvador a enfeitiçou?
ML: Eu senti Salvador assim e me afastei de lá. Logo depois tive depressão e fui menos. Mas, ultimamente, tenho ido. Há dois meses, fiz um show no Bahia Café Hall e fiquei emocionada. Foi uma vitória para mim.

J.P: Voltando ao canto das sereias, como é para uma cantora ficar sem voz?
ML: Muito complicado. Minha carreira sempre foi no tempo que eu quis, do jeito que eu quis. Eu ia devagar e sempre. Quando aconteceu isso, entrei numa fenda e tive de ir ao meu subterrâneo. Tive de buscar a semente do meu dom e por que eu gostava de cantar. Foi difícil, mas entrei e saí. Minha carreira é antes e depois disso.

J.P: Você sente o peso de ter de provar a sua recuperação?
ML: Falei sobre a minha depressão para ajudar outras pessoas, porque tem gente que acha que é frescura. Mas isso é mais profundo. É a minha carreira, o meu ganha pão.

J.P: Envelhecer assusta?
ML: Não tenho grilo nenhum. Estou mais segura, mais feliz, mais relaxada, com menos medo. E com menos medo, a gente se diverte mais.

Fonte: Revista Joyce Pascowitch / Foto: João Wainer

Nov

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Uma Vitória da Razão

foto-10.jpgHoje, novamente, escolhemos uma boa entrevista para republicarmos no .www.slcomunicacao.com Quem não tem acesso a Revista Veja e ainda não leu a entrevista de Demétrio Magnoli – Uma vitória da Razão – ainda nas bancas- deve perder um pouquinho de tempo aqui e ver o que diz Magnoli. Interessante, muito interessante . Para o sociólogo, as últimas eleições mostraram que os brasileiros não se deixam mais levar pela conversa de que toda esquerda é boa e toda direita é má. Vale conferir :

Por Diogo Schelp

O paulistano Demétrio Magnoli, de 49 anos, faz parte de uma categoria de intelectuais – rara no Brasil – que se notabiliza tanto pelo conhecimento acadêmico, como pela habilidade para escrever sobre temas complexos de maneira clara e objetiva. Sociólogo e doutor em geografia humana, Magnoli integra o Grupo de Análises da Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo, e é autor de mais de uma dezena de livros didáticos. Em sua coluna nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, ele expõe análises aprofundadas de política mundial e críticas incisivas às manifestações de pensamento único na sociedade e no governo brasileiros. Magnoli concedeu, descalço, a seguinte entrevista a VEJA, em seu apartamento, em São Paulo.
Entrevista

Os conceitos de esquerda e direita estão ultrapassados?

Não, desde que sejam compreendidos no marco da democracia. No sistema democrático, há uma tensão permanente entre liberdade e igualdade. A primeira está associada à direita democrática, para a qual existe um conjunto indissociável de liberdades: a de expressão e organização, a econômica e a de pluralidade de opiniões. Já o conceito de igualdade está associado à esquerda democrática, que defende a necessidade de restringir um pouco a liberdade econômica para que as desigualdades não cresçam muito. As democracias maduras oscilam entre a direita e a esquerda, em busca ora de mais liberdade, ora de mais igualdade. Essa é a história das eleições na Europa e nos Estados Unidos no último meio século. Acredito que a história do Brasil também será essa. Trata-se de algo muito diferente dos conceitos de esquerda e direita não-democráticas, estes, sim, ultrapassados.

Em certos círculos, dizer que algo é “de direita” serve para desqualificar desde filmes até valores morais. Qual é a explicação para esse uso do termo “direita”?

A palavra “direita” esteve associada no século XX ao fascismo e ao nazismo. Tais regimes foram condenados de maneira absoluta pela população mundial. Em países da América Latina, em particular, a direita foi ligada a regimes militares. Por isso, no Brasil, a expressão “direita” ainda é usada, embora cada vez com menor freqüência, como sinônimo de tudo o que deve ser rejeitado. Já o termo “esquerda” costuma ser relacionado a uma idéia de transformação humanista do mundo, imaginada a partir da Revolução Francesa e das lutas sociais do século XIX. Muita gente esquece que elas, em sua origem, deceparam milhares de cabeças por meio da guilhotina. Assim como esquece a brutalidade do stalinismo e do maoísmo, no século XX.

O senhor acredita que o preconceito contra a direita tende a diminuir?

Sim, e isso acontece quando um país experimenta a esquerda no poder, como é o caso do Brasil, hoje. Nos países de democracia madura, o argumento “isso é de direita” não serve para encerrar uma discussão. Não gosto do governo Lula, mas ele está sendo bom para o nosso amadurecimento político. O PT no poder revelou a esquerda que faz o mensalão, persegue o caseiro, tenta controlar os meios estatais para os seus próprios fins e confunde estado com governo e partido. Com o tempo, os brasileiros vão se convencer de que os partidos de direita e de esquerda devem existir dentro de um mesmo espectro político, desde que aceitem a democracia. Essa mudança de percepção pode ser verificada nas últimas eleições municipais. A classe média de São Paulo, que no passado votou em massa em candidatos do PT, agora elegeu Gilberto Kassab e não o vê como um candidato da velha direita – apesar de pertencer ao DEM, o antigo PFL. Os eleitores não compraram a idéia de que as eleições eram a luta do bem contra o mal, como a campanha do PT tentou vender. O PT imbuiu-se, nessas eleições, da missão de eliminar o DEM. A idéia de eliminar um partido, de centro-direita ou não, é antidemocrática. O que o discurso do PT revela é o desejo de ser partido único. Resultado: a classe média que acreditou no PT agora desconfia de sua natureza democrática.

Pode-se dizer que a ideologia serviu de pretexto para a corrupção do PT?

A corrupção é um fenômeno muito antigo na história do Brasil e completamente suprapartidário. O que espantou muita gente foi o estilo PT de corromper – e que, claro, tem a ver com a sua visão de mundo. O partido apresentou um modo centralizado de praticar a corrupção. Ao contrário da prática tradicional, feita em nome de interesses localizados, o PT deliberou e organizou a corrupção a partir da sua cúpula. Isso provocou uma ruptura muito grande entre o partido e boa parte do seu eleitorado tradicional, principalmente nas grandes cidades.

A vontade de ser partido único não é um anacronismo?

A verdade é que a queda do Muro de Berlim fez muito mal ao PT. O fracasso da União Soviética e de seus satélites no Leste Europeu tirou de cena o foco da crítica petista, que em sua origem repudiava o chamado socialismo real. A partir daí, o partido tomou um rumo regressivo e foi dominado por três grupos. O primeiro é a corrente de origem castrista, representada, entre outros, por José Dirceu. O segundo é o dos sindicalistas, notadamente os que controlam a CUT. O terceiro é formado pelas correntes católicas ligadas à Teologia da Libertação, cujo principal representante é Frei Betto, que foi um alto assessor de Lula. Com isso, o PT adotou uma ideologia retrógrada do estado como salvador da sociedade. Deixou de fazer qualquer crítica ao socialismo real – a não ser em dias de festa, em documentos para inglês ver – e passou a falar como um velho partido comunista de outros tempos. O PT se tornou uma agremiação de esquerda estatizante, para a qual a história é uma ferrovia cujo destino final é a redenção da humanidade – e que vê a si própria como a locomotiva do comboio. Esse é o conceito de história que deveria ter desaparecido depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim. Ao encampá-lo, o PT se tornou uma espécie de relíquia.

Por que a universidade brasileira ainda é um centro irradiador do marxismo?

Isso é verdade apenas em parte. Há bastante crítica à esquerda tradicional e stalinista nas universidades. Mas, sem dúvida, é fato que existe um apoio grande a essa ideologia no meio acadêmico. O filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais. Isso porque o marxismo lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim da história. Como conseqüência, os intelectuais teriam a função de dirigir a sociedade. É natural que uma ideologia assim os seduza. Afinal de contas, dá a eles uma perspectiva de poder, influência e prestígio que o simples compromisso com a democracia não permite.

O que explica a ascensão dessa esquerda obsoleta em países da América Latina?

A falta do espelho do socialismo real na União Soviética e no Leste Europeu faz com que a esquerda latino-americana se entusiasme com governantes como Hugo Chávez. A esquerda latino-americana ainda imagina que deve construir o mundo de novo. Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, e Lula são muito diferentes entre si. Mas o que há em comum entre os partidos e os movimentos que apóiam esses governantes é a noção do estado como instrumento de salvação. Essa é uma idéia fundamentalmente antidemocrática. Não há nada parecido com isso fora da América Latina.

Quem são os principais entusiastas de Chávez no Brasil?

Não é verdade que o PT como um todo siga Chávez, mas existem no seu interior correntes que o fazem. O chavismo exerce forte sedução sobre a sua Secretaria de Relações Internacionais. Acho triste que a direção nacional do partido tenha chegado ao ponto de soltar uma nota oficial em apoio ao fechamento, por motivos políticos, do canal venezuelano RCTV. Essa nota não foi contestada pelos parlamentares do PT de quem se esperaria uma palavra em defesa da democracia, como Eduardo Suplicy e José Eduardo Cardozo.

Como o senhor avalia a política externa brasileira?

A política externa brasileira tem duas cabeças. A oficial, que segue a linha histórica do Itamaraty, e a extra-oficial, que é a política externa do PT, representada por Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula, que boicota a diplomacia tradicional. Garcia acha que a integração latino-americana deve ser feita em bases nacionalistas e antiamericanas, quase chavistas. Ele recusa que a América do Sul deva participar da globalização – o que significa recusar a realidade. Por isso, o Brasil deixou de falar duro com Evo Morales diante do aparatoso cerco militar às instalações da Petrobras, das intimidações contra agricultores brasileiros na Bolívia e da ruptura unilateral de contratos que estabeleciam o valor das refinarias. Logo, logo vamos ter uma crise no Paraguai. Temo que o governo Lula faça pouco para defender os agricultores brasileiros naquele país.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, o processou em 2006 e depois retirou a acusação. O que ocorreu?

Ele abriu um processo em razão de um artigo que escrevi, intitulado “Ministério da classificação racial”. No ano anterior, Tarso Genro, o ministro itinerante do governo Lula, ocupava a Pasta da Educação e determinou que as escolas brasileiras passassem a incluir o item “raça/cor” nas fichas de matrícula dos alunos. Tarso Genro abriu um processo penal contra mim – e por meio da Advocacia-Geral da União – porque critiquei essa medida. Quando foi indicado para o Ministério da Justiça, ele retirou o processo. Imagino que considerou constrangedora a possibilidade de um ministro da Justiça perder um processo. Sabe-se que Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, abria processos em grande quantidade contra jornalistas, para intimidá-los.

Essa estratégia de intimidação, aliás, passou a ser muito usada por setores do governo.

Existem divergências dentro do governo sobre liberdade de imprensa. Alguns membros do governo e do PT acham que se trata de um valor fundamental. Outros, e são muitos, acreditam que o país ideal é Cuba, onde há um partido único e um jornal único. A hostilidade à liberdade de imprensa é tão ampla no PT que apareceu em uma resolução oficial da direção nacional do partido, durante o escândalo do mensalão. O documento acusava os veículos de comunicação de golpismo.

No início da década de 90, os pais dos alunos de um colégio tentaram impedir que um professor adotasse um livro seu, sob o argumento de que o senhor era comunista. Sua visão de mundo mudou ou os pais estavam errados?

Minha visão de mundo não é a mesma de vinte anos atrás nem, menos ainda, a de trinta anos atrás. Na faculdade, nos tempos da ditadura militar, eu participei de uma organização trotskista, a Liberdade e Luta (Libelu), cujo verdadeiro nome era Organização Socialista Internacionalista. Quando escrevi meus primeiros livros, no entanto, já havia rompido com a organização e não me via mais como alguém de esquerda ou comunista. Meu primeiro livro didático, de 1989, era detestado pela esquerda. Talvez os pais desse colégio estivessem um pouco assustados com fantasmas do passado.

Como é a relação com os seus amigos que ainda nutrem admiração por figuras como Che Guevara e Hugo Chávez?

Eu não tenho amigos que gostam de Hugo Chávez, Che Guevara ou Fidel Castro. Simplesmente porque nunca tive amigos stalinistas. Eu tenho amigos que os trotskistas consideram pertencentes à direita feroz. Quando convido todos para uma mesma festa, começa um debate que, obviamente, nunca vai terminar. O debate político não deve impedir as pessoas de se tratar decentemente, mas a atividade intelectual pressupõe o exercício da crítica. Intelectuais que elogiam governos têm algum problema. Provavelmente querem um emprego.

Fonte: Veja/On Line/Foto: Divulgação

Out

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“É ótimo falar besteira”

Tenho recebido cobranças . Amigos e muitos que acessam este espaço perguntam por que não ando movimentando entrevistas, no estilo leve e com textos humanizando os entrevistados. É que, tenho que comandar a reportagem, administração e ainda participar de reuniões com meus clientes da SL Comunicação. Mas, estamos deixando passar os inúmeros eventos (graças a Deus), sabem como adequação da redação aos novos clientes para voltar a postar as entrevistas desejadas. Neste tempo em que não realizamos bate-bola com personalidades locais, estamos sempre buscando entrevistas interessantes para o espaço. Hoje, por exemplo, para quem não leu a Revista veja dessa última semana, uma interessante aparição de Fernanda Young nas páginas amarelas . E parece que ela andou se irritando. A moça bonita e prepotente acabou falando realmente muitas besteiras, fazendo justiça ao título que a Veja buscou para a matéria. Talentosa , Fernanda às vezes nos passa a impressão que quando abre a boca pensa assim: “prestem atenção. Vou falar algo interessante. E nem sempre isso acontece. Mas concordo com ela quando diz que não agüente conviver com pessoas que fazem questão de “gritar para todos” que entendem de vinhos, rótulos, safras e de amadeirados, bla, bla, bla… Eles acreditam serem seres superior por gostar e entender de vinhos. Tempos atrás ouvi de um enólogo que “provou e gostou. É o vinho. O melhor vinho para você”. Mais inteligente, não? Mas vamos a conversa com Young abaixo. Leiam e tirem conclusões sobre Fernanda, nem tão young assim.

Entrevista

imagem-0714.jpgQuem nunca sonhou em falar todas aquelas coisas que aparecem em Irritando Fernanda Young? O programa é sem censuras, sem pudores, sem limites – em suma, irresistível. Nele, Fernanda Maria Young de Carvalho Machado encontrou um presente dos deuses para quem busca o centro das atenções: o personagem perfeito. Aos 38 anos, duas filhas, dez livros, cinco roteiros de sucesso na TV (incluindo Os Normais), duas peças de teatro, mais de vinte tatuagens e um único marido, Alexandre Machado, ela preenche de sobra todos os requisitos para ser chamada de sucesso. Como ainda por cima é bonita, seria demais pedir também normalidade. Fernanda sofre com o desejo voraz de ser amada, acha que tem idade emocional de 6 anos, vive entrando e saindo de terapias. Agora parou, porque quer adquirir “voz própria”. Pelo que se vê nesta entrevista, com níveis variados de irritação, não precisa procurar muito.

Seus livros, peças e roteiros de programa têm sempre um tom autobiográfico. Por que acha que as pessoas estão tão interessadas nas suas histórias?

Meus primeiros livros foram escritos em terceira pessoa. Eram livros bem construídos, mas distantes da minha realidade. Eu vivia sempre em um mundo que não era o meu. Aquilo para mim era o auge do bem escrito. Meu marido me fez ver que não fazia o menor sentido eu escrever sobre coisas que não me diziam respeito. Que escrever sobre culturas que você não conhece pode fazer com que o texto pareça uma redação escolar. É desse jeito que as mulheres fazem, é como elas escrevem. Daí, comecei a falar sobre as minhas próprias histórias. Elas não são mais legais que as dos outros. O que as faz interessantes é que eu sei contar bem uma história. E sei usar o humor.

Escrever é um jeito de ser amada?